| BOA VIAGEM |
Boa Viagem, um dos menores bairros da Região Praias da Baía e de Niterói, apresenta como limites Ingá, São Domingos, Gragoatá e as águas da Baía de Guanabara. No seu litoral encontramos falésias com grutas; a enseada com a praia; as ilhas de Cardos e Boa Viagem(*1); o Torreão(*2) além do enroncamento(*3) do aterrado da Praia Vermelha, por onde passa a Avenida Litorânea.
À exceção das franjas do Morro do Ingá, ao longo da antiga rua Boa Viagem (atual Antônio Parreiras), a ocupação e urbanização do bairro são recentes, aceleradas nos últimos anos com a construção de edifícios residenciais e o aumento de serviços oferecidos.
A topografia dificultou o processo habitual de ocupação. A paisagem natural foi mantida sem alterações drásticas até as primeiras décadas do séc. XX. Antigos viajantes descreviam o lugar como um pequeno paraíso devido aos morros cobertos de vegetação, às ilhas e uma fonte de água potável próxima à praia de águas tranqüilas e limpas(*4).
A presença do homem branco, do colonizador português aos "funcionários estrangeiros", principalmente ingleses e alemães, foi marcante. As chácaras e antigos casarões são marcos dessa época, observando-se atualmente apenas a presença de alguns (uns em ruínas, outros conservados e alguns transformados em casas de cômodos), localizados em um dos lados esquerdos da rua Antonio Parreiras.
A destruição do "pequeno paraíso" dos livros de antigos viajantes foi desencadeada na década de 30 pelo cataclisma provocado no local pela Cia. de Melhoramentos de Niterói. Uma obra de reurbanização de toda a região, sem respeitar o meio ambiente, foi iniciada a todo vapor: desapropriações foram feitas, árvores derrubadas, novas ruas abertas, a paisagem aplainada a trator.... Quando o caos instalou-se, faltou verba e homens e máquinas pararam. O paraíso descrito nos livros não existia mais. A "obra" só foi retomada décadas depois quando então foi executado o plano de melhoramentos traçado no séc. XIX, que previa a construção de um caminho por toda a orla da baía, ligando a Ponta DAreia a São Francisco. O pouco que restara ainda intacto da paisagem natural, mudou. A área entre o Pontal do Gragoatá e a praia da Boa Viagem foi aterrada e feito um enroncamento, desaparecendo as praias do Fumo (em Gragoatá) e a Vermelha ou Roxa(*5) , ganhando-se uma grande área do mar, cuja maior parte atualmente pertence ao campus da UFF.
Desde os tempos do Brasil colônia o perfil do bairro sempre teve como mais significativo o seu litoral. Atestam isso, entre outros documentos, relato do séc. XVIII (1779) que mencionava a presença de 37 embarcações, entre pranchas a remo e saveiros, ancoradas na enseada; as ruínas da ponte de atracação; a abertura da rua da Boa Viagem(*6) e as edificações na ilha da Boa Viagem.
Por suas características e seu relevo submerso (lajes, grutas, etc.), a área em torno da ilha da Boa Viagem sempre foi um excelente pesqueiro. A variedade de espécies da flora e fauna marinhas, levou ao local pescadores profissionais e amadores, além de pesquisadores e estudiosos da vida marinha.
A ilha da Boa Viagem, de relevo bastante erodido, com pequenas grutas e coberta de vegetação, tem excelente localização em relação à entrada da Baía de Guanabara. É um ponto de onde se avistam todas as embarcações que chegam ou saem da baía. O seu sítio é um dos principais monumentos da história de Niterói, por suas edificações e caminhos escavados na pedra. Na ilha, o sacro e o profano, a religião e a guerra, sempre conviveram. Como conviveram em todo processo de expansão marítima e colonização - a Igreja, o Fortim, e a Escola de Aprendizes Marinheiros (1840 a 1846). Até mesmo um lazareto(*7) cogitou-se construir no local.
A Igreja de N. S. da Boa Viagem, protetora dos que se aventuravam pelo mar, foi construída no séc. XVII (no ponto mais alto da ilha, em frente ao mar) pelo Provedor da Fazenda Real(*8) que na porta principal mandou colocar as suas armas. O dia da padroeira era festejado com romaria de pequenas embarcações. Aqueles que viviam do mar e os viajantes, para lá dirigiam suas preces nos momentos de dificuldades, pagando depois promessas pelas graças alcançadas, levando valores (ouro) e objetos (cera) para a Igreja.(*9) A Igreja esteve em plena atividade em alguns períodos e em outros, abandonada. Ela foi ampliada e restaurada, chegando a passar por dois incêndios: um acidental, durante festejos, e outro criminoso, para encobrir o roubo de suas pinturas e imagens sacras. No início do Século XX foi entregue à Sociedade Protetora dos Homens do Mar, que a reformou e melhorou as suas vias de acesso. Construiu-se a ponte de cimento(*10) ao longo do cordão de areia, ligando a ilha ao continente; instalou-se um posto de salvamento no local; e a ilha passou a ser abastecida de luz elétrica e várias festas religiosas são promovidas. Atualmente a Associação de Amigos da Ilha da Boa Viagem coordena os projetos que dizem respeito ao local.
O Fortim da Boa Viagem, chamado de Bateria da Boa Viagem, construído estrategicamente no local, ao longo do tempo foi artilhado e desarmado. Os dois principais momentos em que participou de conflitos foram: durante o ataque da frota do corsário francês Duguay Trouin (1711) ao Rio de Janeiro, em que a insuficiência de armamentos o levou a rendição; e durante a Revolta da Armada, quando foi bombardeado e arrasado.(*11)
Mais recentemente em 1937, o Grupo Escoteiro Gaviões do Mar fez da ilha da Boa Viagem o local de sua sede.
(*1) - Somente na maré cheia e com mar agitado, a língua de areia que liga a ilha ao continente é coberta pela água do mar.
(*2) - Bloco de pedra entre a ilha e o continente, tombado pelo SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional).
(*3) - Maciço de pedras arrumadas ou jogadas, destinado a proteger aterros ou estruturas dos efeitos da erosão.
(*4) - Até o início da década de 60, permanecia ancorado junto ao antigo cais da enseada, um hidroavião, às vezes dois, e que de lá mesmo alçava vôo.
(*5) - Assim denominada devido a cor de suas areias, misturadas à argila vermelha erodida das margens (barreiras vermelhas.
(*6) - Corte no morro, depois rebaixado, para permitir acesso direto à praia da Boa Viagem.
(*7) - Local para abrigo de tripulações em quarentena.
(*8) - Diogo Carvalho da Fontoura.
(*9) - Em 1829, retirou-se da Igreja enorme tesouro: ouro e muita quantidade de cera.
(*10) - A ponte atual, bem mais alta, foi construída na década de 70.
(*11) - A Igreja foi afetada por este ataque.
De acordo com o Censo Demográfico de 1991, 0,46% da população de Niterói reside em Boa Viagem.
No período de 1970-80 o bairro teve a 5ª maior taxa de crescimento anual de população do município, somente superado por alguns bairros da Região Oceânica e Pendotiba, sendo o primeiro em crescimento da Região das Praias da Baía. No período seguinte 1980-91 o bairro continua a crescer, porém com menos intensidade apresentando uma taxa de 1,17%.
Boa parte da população residente (35,76%) é constituída de adultos nas faixas etárias de 25 a 44 anos. A população de sexo feminino supera a de sexo masculino: as mulheres representam 54,27%, enquanto os homens representam 45,73%.
O bairro é o primeiro em percentual de alfabetizados, com uma taxa de 97,83%, considerando a população acima de cinco anos.
Observa-se o percentual de 100% de alfabetizados em vários grupos etários (10/19 anos - 30/34 anos - 45/54 anos - 60/69 anos - 75/79 anos.
A composição familiar do bairro de Boa Viagem tem a predominância do homem na condição de chefe de domicílio, com o percentual de 74,62% e um alto percentual de mulheres (25,38%) nesta condição, considerando-se a estrutura familiar tradicional.
Quanto ao rendimento médio mensal dos chefes de domicílio, o bairro apresenta percentuais que permitem classificá-lo como reduto do estrato social médio/alto. De três a 10 salários mínimos temos 37,33%; 28,73% de 10 a 20 salários mínimos e com mais de 20 salários mínimos mensais, 23,50% dos chefes de domicílio.
Nota-se a verticalização do bairro, com 87,10% dos domicílios instalados em apartamentos. Quanto à forma de ocupação, 70,97% são próprios e 21,51% alugados. Observa-se que não foi recenseada nenhuma habitação em aglomerado subnormal, típica de favelas.
O bairro é bem servido de infra-estrutura básica, quer no abastecimento de água, no destino do lixo ou na instalação sanitária.
CARACTERÍSTICAS ATUAIS E TENDÊNCIAS:
O bairro da Boa Viagem ainda é um dos trechos mais bonitos de Niterói, tanto por seus acidentes geográficos, quanto pela vista que de lá se descortina.
A maior parte das edificações existentes nas poucas ruas do bairro são residenciais. Convivem casas modernas de alto padrão, construções antigas e os recentes edifícios de apartamentos de classe média e de padrão luxuoso. Existe também um pequeno comércio para atender as necessidades locais e, junto ao mar, são muitos os trailers. Há ainda uma área da UFF sem edificações, algumas pequenas praças e também mirantes. Numa dessas praças, a Pedro Alvares Cabral, há um monumento Vela Náutica com a Cruz de Malta que homenageia os navegantes portugueses.
No litoral da Boa Viagem, agora todo cortado por uma avenida que margeia a Baía de Guanabara, é ainda reduzido o fluxo de veículos. A presença mais marcante, nos feriados, nos finais de semana e nas manhãs de todos os dias é a dos praticantes de caminhadas e corridas. Eles procuram combinar o saudável destas atividades com a beleza e a tranqüilidade do lugar. Apesar da poluição das águas da baía, a área da Boa Viagem, diante da barra, é atingida por correntes que renovam mais rapidamente as suas águas. Principalmente nos feriados e nos finais de semana é grande a freqüência de pessoas na praia(*12) . Quando muitos a utilizam como área de lazer, apesar de sua faixa de areia ser bastante reduzida.
A pesca, uma atividade dos tempos antigos, continua sendo praticada, com a presença agora dos "marisqueiros" (catadores de mariscos), embora a pesca predatória e a poluição das águas da baía já tenham afetado a vida marinha da região.
Um problema observado no local é a luta entre a terra e o mar, havendo pontos de permanente deslizamento do morro e do passeio.
Na Boa Viagem são encontrados dois dos principais pontos turísticos e culturais da cidade de Niterói, sendo cartões postais obrigatórios que identificam e que retratam o passado e o futuro: a ilha da Boa Viagem, com as suas construções, e o Museu de Arte Contemporânea, que exibe a ousadia das linhas arquitetônicas do mestre Oscar Niemeyer. Entre as atividades desenvolvidas no bairro, merece destaque as que são promovidas na Igreja da Boa Viagem e fazem parte do projeto "Preservação da Ilha da Boa Viagem" desenvolvido pela Copex/UFF (Coordenação de Projetos Experimentais da Universidade Federal Fluminense). Dentre os itens que compõem o projeto. Existe também uma equipe de arqueólogos pesquisando vestígios indígenas e de outras construções antigas, provavelmente portuguesas, na ilha.
(*12) - Pintores com suas telas e fotógrafos são encontrados freqüentemente. Há muito tempo, desde o século passado, as praias do lugar eram freqüentadas por banhistas, daí o antigo nome da rua Presidente Domiciano - rua dos Banhos. No final da rua Antonio Parreiras, onde hoje há um edifício de apartamentos, havia um bar com cabines de aluguel para troca de roupas de banho construídas na 1ª metade do século.